segunda-feira, 10 de fevereiro de 2025

O dia que Eudes vaiou a vaia


 IMMuB | Notícia - A Era dos Festivais: Entre vaias e aplausos


O comportamento irracional de torcida caracterizou o III Festival Internacional da Canção (FIC) de 1968, promovido pela Globo para concorrer com os da Record, cuja final de sua etapa nacional foi realizada no Maracanãzinho. A história é bem conhecida, mas as disputas cinematográficas atuais me lembraram do Eudes atento e crítico que se posicionou veemente contra uma maioria vociferante numa competição artística, o que é quase um oxímoro. 

 

Caetano já tinha dado o alerta duas semanas antes no TUCA (Teatro da Universidade Católica), numa das eliminatórias do mesmo Festival: “vocês não estão entendendo nada, nada, nada, absolutamente nada!

Discurso de Caetano no festival da canção de 1968 | Facebook 


Eudes era fã de Geraldo Vandré, ganhador Festival da Record de 1966 com “Disparada”, parceria com Théo de Barros, interpretada de forma eloquente por Jair Rodrigues e acompanhada por Hermeto Paschoal, Heraldo do Monte e Airto Moreira, tocando uma queixada de burro no palco. Além de muito bom cantor, Eudes elogiava Vandré por suas muitas virtudes como compositor romântico (“Pequeno Concerto que Virou Canção” era uma das favoritas). 

O dia em que vaiaram a vitória de Chico Buarque: a música de resistência de  Vandré e o Festival Internacional da Canção 


No FIC de 1968, um Vandré minimalista empunhou sozinho um violão e, com os dois acordes de “Pra não dizer que não falei de flores”, arrebatou a maioria dos torcedores entre os 25 mil que estavam no Maracanãzinho. Essa maioria barulhenta, armada de apitos e faixas, despejou vaia de 20 minutos ao conhecer o resultado que dava vitória da fase nacional a “Sabiá” de Tom & Chico, orquestrada por Eumir Deodato e interpretada pelas irmãs Cynara e Cybele, que semanas depois também ganharia a fase internacional. 

O dia em que vaiaram a vitória de Chico Buarque: a música de resistência de  Vandré e o Festival Internacional da Canção 


Assistimos a final nacional em casa, ao vivo em preto e branco. Aos oito anos de idade, sem entender direito, ouvi a explicação exaltada de Eudes, misturando exilados políticos com Gonçalves Dias, com um passarinho, com palmeiras, com a esperança de voltar para “colher a flor que já não dá”. Como as vaias não paravam, ele em frente à TV, vaiou o Maracanãzinho. Aprendi com o Eudes a vaiar a vaia.

quinta-feira, 2 de maio de 2024

Jorge Godoy

Maio de 1969, em plena vigência do AI-5, não sei exatamente como, Eudes conseguiu ir num congresso da Central Única de los Trabajadores de Chile (CUT), talvez representando a Federação dos Bancários de São Paulo e Mato Grosso, organização na qual fazia sua militância política na época. Foi um mês de muita tensão para nós em casa, mas recebíamos cartinhas enviadas por ele de Santiago, cuidadosa e carinhosamente guardadas por minha mãe. Conto mais sobre essas cartas em um próximo post porque neste gostaria de lembrar de personagem que marcou a passagem do Eudes pelo Chile: Jorge Godoy.

Allende e o mosaico chileno, 50 anos depois - Outras Palavras

Ouvi muitas vezes o Eudes falar de como em apenas um mês de convivência consolidou uma amizade com Godoy. Membro do Partido Comunista do Chile e dirigente da CUT, Godoy era também fã de boleros dos anos 50, uma das paixões do Eudes. Além disso, o vinho chileno certamente deve ter contribuído para essa amizade alimentada por charlas nos bares de Santiago e Viña del Mar. E, claro, a empolgação com a Unidade Popular, que em 1969 ainda se preparava para a campanha do ano seguinte, e prometia o socialismo democrático, conquistado pelo voto. 


Eudes tinha feito a opção pela luta contra a ditadura militar nos parcos espaços de organização civil existentes. Se alinhava com o sonho de uma conquista do poder por caminhos distintos da onda cubana, a via armada, que varreu a esquerda do continente e tirou a vida de centenas de jovens brasileiros que não acreditavam na volta da democracia sem confronto militar, terreno preferencial do adversário. Do alto dos meus nove anos de idade, não podia avaliar o quanto essa opção pela luta nos espaços civis para a reconquista da democracia pode também ter sido importante para conectar Eudes e Godoy. O que estava para acontecer no Chile, tanto a vitória da Unidade Popular em 1970 quanto o seu massacre em 1973, influenciariam a esquerda em todo o mundo. Em meados de 1969, alguma esperança ainda resplandecia.


1973: Golpe militar derruba Allende no Chile – DW – 11/09/2021


Godoy me voltou recentemente durante a leitura do livro "The suicide museum", do argentino-chileno-americano Ariel Dorfman, que narra com muita angústia uma "auto ficção", como definiu Mario Sergio Conti, em que discute como morreu Salvador Allende no ataque ao Palácio Presidencial de La Moneda. A angústia da leitura me reavivou a memória da angústia que senti aos 13 anos, tocado pela angústia ainda maior do Eudes, com as imagens diárias pela televisão, que mostravam a crise chilena e o golpe de estado sendo gestado ao longo de 1973 e efetivado no 11 de setembro. 

The Suicide Museum by Ariel Dorfman: 9781635423891 |  PenguinRandomHouse.com: Books

Em algum momento, creio que ainda em julho ou agosto, vi Eudes dar um pulo do sofá ao reconhecer na TV seu amigo Jorge Godoy como Ministro do Trabalho do último gabinete de Allende. No Brasil as coisas iam de mal a pior e àquela altura já estava difícil sustentar alguma esperança com o que acontecia no Chile. 


Chile Allende gobierno con militares

El Presidente Salvador Allende junto a su gabinete de Salvación Nacional en 09 de agosto de 1973. De pie, de izquierda a derecha: Edecán Áereo, Roberto Sánchez Celedón, Gonzalo Matner García, Odeplan; Fernando Flores, Secretario General de Gobierno; Pedro Felipe Ramírez, Minería; Jorge Godoy Godoy, Trabajo; Arturo Jirón, Salud; [General Director de Carabineros] José María Sepúlveda, Tierra y Colonzación; Anibal Palma, Vivienda; Pedro Vuscovic, Corfo, Edecán Naval Jorge Grez Casarino y el Edecán Militar, Sergio Badiola Broberg. Abajo: General Carlos Prat, Defensa Nacional; Edgardo Enríquez, Educación; José Cademartori, Economía; Orlando Letelier, Interior; Salvador Allende Gossens, Presidente de la República; Clodomiro Almeyda Medina, Canciller; Almirante Raúl Montero, Hacienda; General del Aire César Ruiz Danyau, Obras Públicas y Jaime Tohá, Agricultura.


Do Archivo Salvador Allende é possível conhecer o discurso feito pelo presidente ao apresentar e dar posse a cada um de seus ministros em 5/julho/1973, incluindo Godoy:

Será Ministro del Trabajo, mi estimado amigo y compañero Jorge Godoy Godoy, obrero, Presidente en ejercicio de la Central Única de Trabajadores.


Allende termina seu discurso de posse do novo ministério alertando para as dificuldades que teria pela frente, embora ao mesmo tempo esperançoso no intuito de sossegar os ânimos convulsionados no país, mas claramente incapaz de avaliar a catástrofe que se avizinhava:

En este momento difícil, llamo a la reflexión a muchos que no quieren entender, que el destino de nuestra Patria nos obliga generosamente a actuar y a estar más allá de las apetencias personales o de las querellas partidarias sin fundamento.


Yo sé perfectamente bien que los procesos revolucionarios, lógicamente, sacuden y convulsionan a los pueblos. Pero sé también que aquí hemos querido, y tratamos de hacer, algo que otros pueblos no alcanzaron: una revolución por cauces distintos, de acuerdo a nuestra historia, a nuestra tradición y a nuestra realidad.


Espero que solos seamos capaces de escribir una página más, para señalar que Chile tiene su propia voluntad creadora y su noble decisión de hacer cada vez más grande a la Patria.


No Brasil, após a breve aparição na TV, nunca mais tivemos notícias de Godoy, ainda mais com censura a pleno vapor. Conversei com Eudes algumas vezes anos depois, mas não tínhamos possibilidade de nenhuma informação. Eudes acreditava que talvez tivesse morrido durante a violência do golpe ou da ditadura de Pinochet que se seguiu. Talvez tivesse conseguido escapar para uma embaixada e depois o exílio, como o próprio Dorfman. Mesmo com a chegada da internet, fiz algumas buscas sem sucesso, por ter muitos homônimos em diversos países. Mas nunca esqueci de Jorge Godoy, amante de boleros e amigo do Eudes.


O livro de Dorfman me animou a retomar as buscas online, e assim me reconectar de alguma forma com Eudes e seus ideais. Desta vez consegui um pouco mais de informações. O livro "Punto Final. Autobiografía de un rebelde", de Manuel Cabieses Donoso, tem alguns trechos na internet e revela um Godoy preso, ferido e humilhado na TV, mas indicando que conseguiu chegar ao exílio e ser expulso pelos camaradas. Nas palavras de Manuel Cabieses:

Apareció ante nosotros con la cabeza chorreando sangre quien hasta hacía pocos días había sido Ministro del Trabajo, Jorge Godoy, comunista. Después del golpe, Godoy apareció en la televisión llamando a los trabajadores a no resistir para evitar un derramamiento inútil de sangre. Le habían pegado un culatazo en la cabeza y sangraba mucho. Godoy creyó que yo era un funcionario, no sé, me vio cara de autoridad, y se dirigió a mí: -Señor, por favor, mire como me tienen, que no me golpeen más… No alcancé a decirle nada porque me empujaron dentro de la celda. Y allí estuvimos con Godoy dos o tres días, con solo una marraqueta para compartir como alimento, hasta que nos llevaron al Estadio Nacional. Godoy me relató que lo obligaron a intervenir en la TV bajo amenaza de muerte. De todos modos el PC lo expulsó cuando llegó al exilio.


A partir dessas informações fui procurando mais pistas sobre Godoy, o quarto (e último) Ministro do Trabalho nos agitados três anos do governo Allende, o quarto do Partido Comunista e o quarto vindo da CUT, segundo a Wikipedia. Mas é o único para quem não foi criado um verbete, por ser o menos famoso e, portanto, o mais difícil de se achar informações sobre ele. 


Em uma página do governo do Chile, Anales de la Republica, pode-se encontrar informações de todos aqueles que em algum momento ocuparam cargos no poder executivo do país. No verbete Jorge Godoy Godoy ficamos sabendo que ele nasceu em 1920 e é filho de Celedonio Godoy. Nesta página aparecem dois trechos de discursos de Godoy. Em um deles, critica a aparente falta de critério nas invasões de fábricas: “El reivindicacionismo sin principios beneficia sólo a un grupo reducido de trabajadores”. O outro parece ter sido o que disse na TV depois do golpe, já preso: “Preguntado el 11 de septiembre de 1973 para movilizar a los trabajadores al centro de Santiago, responde: ‘No. Los trabajadores están bien en sus centros de trabajo. Allí saben que tienen que hacer’.” 


Importante mencionar que este segundo depoimento de Godoy foi publicado na Revista Ercilla, que desde 1971 pertencia à Democracia Cristiana. Uma edição desta revista quinzenal publicada em setembro de 1973 revelava um assassinato em massa que o governo Allende planejava para o dia 17 de setembro: “Miles de extremistas, chilenos y extranjeros, pettrechados con armas importadas de paises como Cuba, URSS y otros, y adiestrados en las propias residencias de Allende, se lanzarían al asesinato de oficiales, dirigentes políticos, periodistas y profesionales en una primera etapa para someter al país a una dictadura totalitaria. No alcanzaron a cumplir sus propósitos.”


Num artigo acadêmico publicado em 1991, Juan Andrés Medina Aravena, discute a politização da CUT em seu envolvimento com “el Gobierno de la Unidad Popular”, concluindo que “la organización laboral se ha transformado em um ente paraestatal” inclusive com responsabilidade de conduzir “el proyecto educacional del Gobierno”, afastando outros segmentos trabalhistas não alinhados com a construção do socialismo e ajudando a isolar ainda mais o governo. Neste artigo, Godoy é mencionado por seu discurso como presidente da CUT nas comemorações do Dia do Trabalho em 1º de maio de 1973, quando o orador “plantea que el país se encontraba em presencia de la agudización de la lucha de clases”.


Depois do golpe, a embaixada da Suécia em Santiago chegou a abrigar 250 refugiados, a maioria de estrangeiros que haviam chegado ao Chile como refugiados, entre eles vários brasileiros. Segundo o Instituto Memoria Viva, que mantém um arquivo digital das violações dos direitos humanos durante a ditadura no Chile, Godoy estava entre “las personalidades chilenas más destacadas refugiadas en la Embajada de Suecia”.


Em artigo de 2016, Carmen Pinto Luna faz uma análise do funcionamento da CUT no exterior, a CEXCUT, após ter cancelado sua personalidade jurídica no Governo Pinochet com o argumento de que “era un instrumento político y no sindical, al servicio de intereses contrarios a los trabajadores (...) en que se confiesan los propósitos de instaurar en Chile el marxismo-leninismo”. Neste argumento, Godoy é mencionado como exemplo da CUT ser um braço do governo deposto. O artigo comenta também como Godoy e outros companheiros da CUT e do Partido Comunista se abrigaram em embaixadas até fevereiro de 1974 antes de partir para o exílio.


Em artigo acadêmico de 2006, Fernando Camacho comenta a situação de asilo prolongado de autoridades, como Godoy, na embaixada da Suécia. O país com o modelo de socialismo democrático do primeiro ministro Olof Palm prestou ampla solidariedade aos exilados. Segundo o Instituto Memoria Viva, a Suécia abrigou cerca de 15.000 Refugiados chilenos entre 1973 e 1989. Camacho se refere a uma “comunicacion personal” de Godoy divulgada em Estocolmo, aos 18 de julho de 2006:

En este aspecto hay que destacar que la Central Unica de Trabajadores (CUT) no tuvo planes propios de tomar fabricas o industrias libremente. La CUT habia acordado previamente con el gobierno de la Unidad Popular cuales empresas debian se estatizadas, entre las cuales no se encontraba em ningun caso la Cia. Chilena de Fosforos. En el caso particular de la empresa sueca fueron algunos afiliados de la CUT que de manera particular hicieron un intento de ocupar dicha firma, sin que ello fuera parte de los planes del sindicato. 


Essa comunicação de 2006 se refere a um episódio de conflito entre a embaixada e a CUT ocorrido 33 anos antes quando houve ameaças de ocupação de empresas suecas por trabalhadores chilenos. Harald Edelstan, embaixador desde 1972 e simpático ao governo da Unidade Popular, protestou. A CUT contornou a situação específica, mas a ocupação de fábricas estava se disseminando ao final do governo Allende, em muitos casos contrariando as orientações do próprio governo.


Em sua tese de doutorado, Elisa de Campos Borges descreve os “cordónes industriales” grupos organizados a partir de outubro de 1972 com o propósito político de ocupar fábricas e reivindicar sua estatização. Como os salários e benefícios dos servidores do estado eram melhores do que os do setor privado, disseminava-se que a estatização traria benefícios imediatos aos trabalhadores. Elisa menciona como Godoy se tornou presidente da CUT em novembro de 1972, quando o então presidente Luis Figueroa se tornou Ministro do Trabalho, cargo que Godoy iria ocupar por um breve período apenas 8 meses adiante.


Professor André Carvalho localizou um delicioso testemunho de Juan Capel, comunista espanhol também exilado na Suécia, que relata a convivência com Godoy no exílio. Capel comenta que os exilados organizaram o “Club de los Cronopios de Estocolmo”, dedicado a “charlas y conferencias sobre experiencias en España y sobre la situación en Chile”. O nome do clube é uma clara homenagem a Julio Cortázar, escritor argentino que criou os cronópios, personagens com alma de artista e desorientados com a ordem social vigente. 


Em seu testemunho Capel relata um seminário conduzido por Godoy no Club, “sobre la historia del sindicalismo en los países del denominado Cono Sur, analizando y contrastando de forma muy pedagógica las experiencias de Chile, Argentina y Uruguay”. Sobre Godoy, com quem almoçava frequentemente, Capel afirma “que en el campo de lo que se entiende por química personal, pocas personas había conocido yo comparables a Godoy en términos de corrección, discreción y afabilidad. Se diría todo un encanto.” Ainda assim, Capel se recorda do constrangimento quando apresentou a Godoy em agosto de 1975 um livro com críticas às doutrinas do PC soviético sobre questões nucleares e climáticas e Godoy lhe “dejó con cara de poema y sin saber muy bien qué demonios hacer con la mano que sujetaba el libro”. Segundo Capel, Godoy ainda “comentó al cabo que él no leía panfletos antisoviéticos y que, al margen de las disquisiciones más o menos oportunas sobre tan sustantivos contenciosos, aquel texto no era sino una muestra más de puro antisovietismo al uso”. Talvez não tivesse ainda sido expulso do Partido, talvez estranhasse o perfil eurocomunista do companheiro, já que ainda estava recém-chegado ao exílio, o que explicaria ainda sua fidelidade à doutrina comunista oficial que ruiria definitivamente pouco mais de uma década depois. 


Digno de nota são comentários na página do testemunho de Capel de duas pessoas que, em 2017, gostariam de saber mais sobre o paradeiro de Godoy e sua família. Perguntam “de su hija Vania” ou como “ubicar al señor Jorge Godoy? por favor he intentando ubicarlo, hace un año, estoy en Suecia”. Por esse último comentário, suspeito que Godoy não tenha mais voltado definitivamente ao Chile, assim como diversos compañeros mencionados no livro de Ariel Dorfman, inclusive o próprio.


Encontrei uma última referência a Godoy numa lista de mais de 500 potenciais entrevistados para uma tese de doutorado defendida em abril de 2017 por Germán Luis Pardo Manríquez. Nesta lista, Godoy aparece na categoria “Ministros vivos de Allende”. Aparentemente não foi entrevistado e seria quase centenário na época. 


Este pequeno trabalho de pesquisa sobre Jorge Godoy foi realizado em alguns dias e sem critério objetivo, motivado pela emoção despertada pelo livro de Ariel Dorfman. Hoje, 1 de maio de 2024, Dia do Trabalho, queria prestar uma homenagem ao Eudes e seus amigos idealistas, em especial Godoy, que tombaram nessa longa e tortuosa jornada por uma sociedade mais justa e fraterna.

 

 

sábado, 14 de novembro de 2020

Nezinho



Herberto Diniz, meu tio Beto, irmão dois anos mais novo do Eudes, escreveu esta carta, postada de Sete Lagoas em 2/4/1996:

EUDES, como lhe disse, aí estão os primeiros rabiscos, uma ideia do que estou pretendendo. As informações que você puder me mandar, inclusive registros pessoais de memória, registros dos parentes, aquela certidão, tudo será bem recebido. O que vai sair daí, só o tempo dirá.

             "Meu pai, Manoel Ferreira Diniz, Nezinho para os familiares e amigos, era filho de Emídio Ferreira Diniz e Evelina Ferreira Diniz. Nasceu a 19 de novembro de 1907 em Petrolina, do lado pernambucano do rio São Francisco, bem defronte à cidade baiana de Juazeiro, região onde uma ponte liga Pernambuco à Bahia.

            Barbeiro e cabeleireiro por profissão, ganhou popularidade local pelos seus dotes de violonista e cantor. Em Petrolina, atuou em muitos shows, principalmente acompanhando cantores populares famosos na década de trinta. Já reunia uma quantidade apreciável de convites e cartas de apresentação, referências que certamente lhe abririam portas, quando tomou a decisão de partir em busca do sonho de voos mais altos na carreira artística, quando as emissoras de rádio começavam a abrigar artistas de sucesso no Rio de Janeiro.

           


               E
mbarcou em um dos muitos barcos a vapor da C
ompanhia de Navegação do São Francisco, que compunham a linha Juazeiro a Pirapora, ponto final da parte navegável do rio. Permaneceria alguns dias em Pirapora na casa de Vicente, seu irmão mais velho, antes de prosseguir viagem em direção à antiga capital federal, provavelmente na segunda classe do trem expresso da estrada de ferro Central do Brasil. Assim que chegou a Pirapora, começou a trabalhar enquanto aguardava a hora mais propícia para por o pé na estrada e cumprir sua sina de nordestino. 

           A habilidade na tesoura e nas cordas foi trazendo amigos e ele foi ficando. Casou-se e teve filhos em Pirapora. Nezinho não era aquele boêmio clássico, embora eventualmente participasse de noitadas com os seresteiros da cidade. Não era farrista, como naquele tempo o violão poderia sugerir. Jovens e adultos de todas as idades e de todas as famílias tanto se sucediam na sua cadeira de barbeiro quanto se deleitavam com as valsas, modinhas e sambas em voga, reproduzidas pela sua voz e seu violão.

Em 2020, falando desta carta, Beto revelou outras informações sobre Nezinho:

           O principal clube de Pirapora nessa época era o Independentes, ao lado de nossa casa, o clube da chamada elite local. Havia também o clube dos Marítimos, do pessoal da navegação, mais popular. Nezinho passou a participar ativamente da vida da comunidade, e ajudou a fundar aquele que se tornou um dos principais clubes sociais do lugar. Meu pai pretendia que o clube fosse também literário, mas essa ideia não foi vista com bons olhos e foi vencida, e o clube no fim ficou apenas recreativo. Parece que grupos literários abrigavam movimentos de esquerda, numa época em que os comunistas eram muito demonizados. Veja a ata nº. 1, do Centro Recreativo Piraporense: 

Pirapora, 11 de janeiro de 1941. Amºs. e Srs. - Havendo necessidade de fundar-se mais um Club recreativo e literário em Pirapora, tomo a iniciativa de convidar Vs.Srs. para uma reunião amanhã, dia 12, às 14 horas no Hotel Internacional, a fim de discutirmos os pontos principaes (sic) e elegermos uma diretoria provisoria. 

Ass. Manoel Diniz, seguindo-se 38 outras assinaturas, e os respectivos "scientes". 

Inauguração do Club noticiada no jornal carioca A Noite em 29/05/1941


                  Em março de 1942, com navios sendo afundados na costa brasileira, o assunto do momento era a guerra. Nezinho ficava até tarde da noite ouvindo as notícias internacionais pela Voz da América nas ondas curtas do rádio, pois as estações brasileiras fechavam mais cedo. Embora as transmissões fossem também em português, parece que ele ficava procurando outras estações, espanholas ou mesmo portuguesas, pois não creio que pudesse compreender completamente as transmissões em inglês. Encontrei um livro, já sem capa, com lições básicas de pronúncia em inglês e restos de livros contábeis em branco que ele utilizava para anotações (além de barbeiro, também fazia escritas contábeis). Aparentemente era autodidata, dadas as dificuldades para estudar naquela ocasião.   

                Numa tarde de festa solene no clube, em que seriam inaugurados retratos do presidente e do governador, Nezinho pegou três dos filhos, Dagmar, Eudes e eu, com 7, 6 e 4 anos de idade, e nos levou para essa reunião. Minha mãe ficou em casa com Roberto, de dois anos, e já nos dias de ter Manoelita. Quando saímos de casa, veio até a porta, de lenço branco na cabeça, eu disse a ela que íamos "tirar retrato", uma confusão com a inauguração dos retratos. Podia ter sido um dia comum, mas foi o dia que mudou o destino de cada um de nós. Nezinho nunca pode trazer os filhos de volta para casa. Ao final da solenidade, sentiu-se mal e faleceu no local.         
 
Praça do Coreto em Pirapora nos anos 40

              No dia do falecimento do meu pai, vi Eudes no meio da praça do Coreto, com a gravata do meu pai no pescoço. Parecia se divertir, sem noção do drama que estava se desenrolando. Uma moça chegou perto e disse que meu pai tinha ido comprar picolés para nós. Dagmar presenciou a morte do meu pai e disse que eles o deitaram numa varanda ao lado do salão do clube. 

            Alguns flashes desse dia: ele deitado na cama lá em casa com um lenço cobrindo o rosto, um curioso chegando e levantando o lenço para olhar. Minha madrinha e a irmã, o beijo de despedida no rosto gelado. Não consigo me lembrar quem nos levou pra casa de uns vizinhos, com uns meninos da nossa idade. Eu disse que "a gente morria mas depois voltava". Um deles desmentiu e me deixou com um nó na garganta. Meias lembranças que vou levar comigo. 

Ata da vigésima primeira (21ª.) seção do Centro Recreativo Piraporense, realizada às quinze (15) horas do dia quinze (15) de março de mil novecentos e quarenta e dois (1942), presentes a diretoria do Centro, os exmos. senhores juiz de direito, prefeito municipal, coletor estadual, altas autoridades públicas, representantes de casas de crédito, do comércio e indústria da cidade, e corpo social do Recreativo, com o fim especial do programa, qual seja o de fazer-se inaugurar no salão do Centro os retratos dos eminentes senhores dr. Getúlio Vargas, chefe da República, dr. Benedito Valadares, governador do estado de Minas e major Ernesto Dorneles, chefe de polícia do mesmo estado. O sr. Nelson Trindade Cota abre a seção convidando para presidi-la o meritíssimo senhor dr. Edmundo Bicalho Filho, juiz de direito da comarca. (seguem-se vários parágrafos sobre o transcurso da reunião). Em seguida, o presidente da seção leu dois telegramas de agradecimentos das homenagens respectivamente dos exmos. srs. drs. Getúlio Dorneles Vargas e dr. Benedito Valadares Ribeiro. Franqueada a palavra dela fez uso o sócio Manoel Ferreira Diniz, que em breves palavras pediu que a solenidade fosse coroada cantando-se no seu encerramento o Hino Nacional Brasileiro. O exmo. juiz de direito fez uma oração sobre o nosso hino, sendo muito aplaudido. Pelos presentes foi cantada com entusiasmo a canção nacional.  Nada mais havendo que se fizesse, foi encerrada a seção (sic), mandando o sr. presidente do Centro que por mim fosse lavrada a presente ata, etc., seguindo-se 3 assinaturas. 

                Na ata escrita naquele dia, não havia nenhuma observação sobre o que ocorreu ao final. Mas em 1993, Manoelita esteve em Pirapora, procurou o antigo presidente, resgatou várias cópias das atas, e cobrou dele essa omissão. Com a letra já um pouco trêmula, ele fez seguinte emenda na ata do dia 15 de março de 1942:

"Obs. Lamentavelmente, no fim do Hino Nacional cantado a pedido do nosso sócio nº. 1, Manoel Diniz, razão de ser deste Club, sua emoção foi tanta que começou a passar mal. Levamos o associado para o alpendre e imediatamente chamamos o dr. Rodolfo Malard, que morava em frente do Club, entretanto quando o médico chegou dissera ser desnecessario (sic) qualquer outra providência, porque o estimado sócio se encontrava morto. Ass. Nelson Trindade Cotta, Presidente"

Falecimento de Nezinho noticiado no jornal A Noite em 17/03/1942




                 Naquele dia, além dos retratos mencionados foram inaugurados outros, inclusive o do meu pai, que eu pude ver anos mais tarde, na parede de um cubículo ao lado do salão. Mãe dizia que no dia do enterro, uma segunda-feira, foi uma espécie de feriado, nada funcionou em Pirapora. Antigamente era possível, até porque o prefeito era meu padrinho, compadre dele.

                Nezinho talvez fosse um cara de estopim meio curto. Vi umas tiradas dele em uma das atas do primeiro ano, chamando a atenção do pessoal por um erro. Tinha o propósito de seguir viagem com a família no fim do ano, mas estava escrito que não chegaria ao Rio de Janeiro. Seus planos, seus sonhos, terminaram ali mesmo. Tinha 34 anos.                


sábado, 31 de outubro de 2020

Crônica para um Grande Amigo

2 de novembro, dia de Finados, dia da despedida do Eudes, em 2010. 

José Antônio Diniz de Oliveira, um grande amigo, escreveu esta crônica, publicada em Dez/2010 na Revista do Satélite, uma das tantas associações dos funcionários do Banco do Brasil das quais o Eudes foi ativo participante.

Difícil, muito difícil escrever sobre você, Humberto Eudes. Afinal, foram 25 anos de conversas, lutas e vivências que marcaram demais a vida de seus amigos mais próximos.

Eu poderia falar do militante comunista que entrou para o Partidão em 1968, quando todo mundo estava saindo ou se escondendo. Época em que você, caixa do Banco, temendo perder o emprego, tirou carteira de habilitação profissional para ser taxista, se a situação piorasse.

Foi quando também se elegeu conselheiro fiscal da Cooperativa de Consumo. Tinha cinco anos de Banco e enfrentou problemas para recusar a aprovação de um balanço (em que o contador ganhou uma geladeira para assinar o balanço). Contando isso hoje, parece bobagem mas em 1968, os tempos eram difíceis, a ditadura recrudescia e dar uma de herói era quase um suicídio. Mas você era teimoso e resistiu a participar de uma enganação. Quase virou taxista ("o que não seria nenhuma desonra", você diria). 

Um dia virou diretor da Cooperativa. Já era década de 80. Começou como diretor e depois foi presidente, revezando com o Barreto. Foi uma época pujante, até a inflação galopar e virem os planos Cruzado, Bresser, Verão, Collor. E a Cooperativa, firme, vendendo com 50 dias de prazo, porque você não abria mão de "arrecadar dos fornecedores e do Banco para repassar aos cooperados".

Em 1989, criamos a FECOB, para reunir as cooperativas de consumo dos funcionários do BB, revelando uma realidade que nem o Banco conhecia. Você foi o primeiro presidente, mas nunca se importou com isso. Importava-se muito mais com o fechamento de uma cooperativa, por menor que fosse, porque via nisso uma fragilidade do nosso sistema e da nossa causa romântica. Nós que professávamos os princípios dos probos pioneiros de Rochdale que, na Inglaterra ("nos arredores de Manchester", dizia) criaram o sistema cooperativista em 1844.

Um dia o pessoal da Previ descobriu a sua importância e você foi eleito conselheiro deliberativo. E foi sua melhor fase, sua grande contribuição. Na reforma do estatuto de 1997, seu trabalho foi fundamental para o texto e para o debate. Alguns militantes de fala fácil que nunca legaram nada, criticam até hoje. Para ficar apenas num ponto, o benefício dos aposentados acompanhava o salário do pessoal da ativa, que ficou oito anos sem reajuste. Não fosse o índice inserido em estatuto, certamente os aposentados receberiam hoje metade do que recebem.

Quando veio a privatização, disse: "eu também sou contra, mas se vão fazer, a Previ tem que participar."  Foi assim que a Vale não se desnacionalizou completamente. Também defendeu a participação no Conselho das empresas, para que a Previ não cedesse apenas seus recursos, mas pudesse influir nos destinos de seus negócios. 

Defendeu o investimento em projetos que viabilizassem o Brasil- mantido o ganho atuarial e  legal, é claro - "porque não poderíamos ser navegantes de primeira classe de um barco que estivesse afundando". Simples: o Brasil tinha que dar certo.

Meu velho, só a Rosa - sua companheira de tantos anos - saberia descrever tudo o que você viveu e sofreu pela coletividade dos funcionários do Banco. Só ela conhecia o seu lado mais forte e suas fragilidades.

Mas não é da sua militância política ou associativista que os amigos que conviveram com você sentem mais saudade. É do leitor voraz, de memória incrível; do poeta que decorava poesia, cometia sonetos e fazia músicas; do cinéfilo que não se esquecia do enredo de filmes, ainda que muito antigos; do erudito; do crítico; do popular; do chantagista emocional; do emotivo, do sentimental que sabia todas as músicas (nome, compositor, letrista); do palmeirense; do mineiro.

Pai, filho, irmão e amigo. Preciso de todas essas dimensões para dizer do afeto pela sua pessoa e expressar a falta que você representa na vida de quem teve o privilégio de compartilhar sua doce e intensa companhia.

A gente nunca vai se conformar, para usar um verso seu, "com o vazio desta dor".





domingo, 9 de agosto de 2020

Tolezano

Salvador Tolezano é nome de rua no Mandaqui, em São Paulo, próximo ao Conjunto dos Bancários (localização no mapa). Tolezano foi presidente do Sindicato dos Bancários de São Paulo entre 1969 e 1970. Liderança importante, ajudou na mobilização da categoria pós 1964, como conta Frederico Brandão, que o antecedeu na presidência do sindicato, entre 1966 e 1969. Walter Barelli, importante nome do DIEESE, também lembra da liderança de Tolezano em seu depoimento ao Centro de Memória Sindical.

Amigo próximo de Tolezano, Eudes nos contava histórias do sindicalista, nascido na Itália, cruzando fronteiras controladas pelos nazistas ao final da guerra e, com apenas 6 anos de idade, funcionava como mensageiro para os "partigiani". Eu ficava encantado de saber como um menino menor que eu era capaz de uma façanha de tanta coragem.  

Tolezano tinha uma outra importância fundamental para mim. Era ele que, por algum motivo que nunca entendi muito bem, encaminhava os fascículos da enciclopédia Conhecer que o Eudes trazia pra casa e eu devorava, antes mesmo de serem encadernados naqueles grandes livros vermelhos. 

Antes do Google e da Wikipédia – as enciclopédias do passado ...


Membro do Partido Comunista Brasileiro, Tolezano ficara, como o Eudes, na ala minoritária dos bancários contra entrar na luta armada. A maioria tinha ficado com Marighella e achava que só uma solução militar poderia restaurar a democracia. O trabalho no espaço muito restrito deixado para a militância civil dava pouca visibilidade, avançava muito lentamente, mas tinha conseguido deixar uma marca entre os bancários.

Tolezano foi assassinado por dois policiais militares a quem deu carona na volta de um evento do sindicato em Sorocaba, em janeiro de 1970. O assassinato foi tratado como crime comum, pois os dois policiais foram presos e alegaram que queriam rouba-lo. Curiosamente, não levaram relógio nem carteira, jogados numa represa junto com o corpo, amarrado numa pedra. 

A repressão avançava não só contra quem pegava em armas contra o regime militar. Quem estava na ação civil também estava sob risco. Para Eudes, foi o sinal para se afastar do movimento sindical. Fez a opção de defender a segurança da família. Era mais importante, naquele momento, ser marido e pai.   

Tolezano deixou filhos, a quem, 50 anos depois, desejo um feliz dia dos pais. 


sexta-feira, 7 de agosto de 2020

Lágrimas de pai-herói

18 de setembro de 1971, um sábado. Eu tinha 11 anos.

O jornal vespertino na TV tinha chamado minha atenção com uma notícia insistente: Carlos Lamarca tinha sido morto na véspera. Capitão do Exército Brasileiro, serviu no Batalhão das Nações Unidas no canal de Suez em 1962 antes de transformar-se em terrorista procurado. Era um dia cinza, fim de inverno.

Lamarca (primeiro à direita) aparece como procurado em um cartaz

Já tinha ouvido sobre ele. Eudes, bancário, fazendo comentários sobre um Lamarca instrutor de tiro para bancários enfrentarem os assaltos constantes promovidos por terroristas. Depois fugiu com armas de um quartel e virou paradigma do enfrentamento armado ao regime militar. Algo de façanha, algo de trágico. Depois de Marighella e antes do Araguaia.

Lamarca em treinamento

Naquela noite, amigos dos meus pais confraternizaram na minha casa. Cervejas, comidinhas da minha mãe, muita conversa sobre música. Histórias, piadas. Risos. 

Inventei de entrar na conversa dos adultos. E fui falando: "mataram aquele cara, o Lamarca". "Como?" "Quem?" "Lamarca?" "Não pode ser." "Foi sim. eu vi na TV". Silêncio. Eudes, já depois de um número de cervejas, começou a lacrimejar. Evoluiu para um choro compulsivo. Os amigos sentiram. Despedidas, fim de festa. Eu sem entender. Acabei com a festa? 

Eu tinha 11 anos.



 

segunda-feira, 27 de julho de 2020

Eudes e a Grande Cidade

Em julho de 1963, depois de três meses morando sozinho e já trabalhando no Banco do Brasil, Eudes escreve para Rosa vir com as crianças e se juntarem a ele em São Paulo, a grande cidade:

"Porque é dolorosamente insuportável enfrentar um longo dia que se inicia muito antes do sol, sair muito depois que o sol já se foi, enfrentar filas, empurrões, pisadas, xingatórios, pragas, brigas, viajar que nem sardinha, para continuar dolorosamente triste, intensamente preocupado, sentimentalmente sozinho."


Já vivendo o que Friederich Engels tinha descrito em "A Situação da Classe Trabalhadora na Inglaterra", Eudes certamente conhecia essa literatura: "Esses milhares de indivíduos, de todos os lugares e de todas as classes, que se apressam e se empurram (...), essas pessoas que se cruzam como se nada tivessem em comum (...) e ninguém pensa em conceder ao outro sequer um olhar. Essa indiferença brutal, esse insensível isolamento de cada um no terreno do seu interesse pessoal é tanto mais repugnante e chocante quanto maior é o número desses indivíduos confinados nesse espaço limitado; e mesmo que saibamos que esse isolamento do indivíduo, esse mesquinho egoísmo, constitui em toda parte o princípio fundamental da nossa sociedade moderna, em lugar nenhum se manifesta de modo tão impudente e claro como na confusão da grande cidade." 

Este mesmo sentimento sobre a cidade grande voltou a se materializar alguns anos depois, quando Eudes tomou gosto pela  canção "Despertar" (veja abaixo), interpretada por Iracema Werneck, a quinta música da fase eliminatória nacional do III Festival Internacional da Canção apresentada no Maracanãzinho numa quinta-feira, 26 de Setembro de 1968. Na mesma noite, a jovem Beth Carvalho defendeu "Andança", de Danilo Caymmi e Edmundo Souto. Este festival ficou mais conhecido pelo embate entre "Sabiá" de Tom Jobim e Chico Buarque, preferida dos jurados, e "Caminhando" de Geraldo Vandré, preferida do público, ambas defendidas no sábado, 28 de setembro.  (retirado do arquivo do Jornal do Brasil, clique no link para ver a página do jornal em uma época que se publicavam as letras das canções como escalação de times que se enfrentariam mais tarde).

"DESPERTAR" (clique para ouvir)

Flávia de Queirós Lima — Hedis Barroso Neto — Intérpretes: Iracema Wemeck e As Compositoras

Debruçada na janela

vejo o sol se espreguiçando, 

colorindo novo dia —

vem sorrindo, vem cantando 

no barulho da cidade

que desperta de mansinho.

... o leiteiro vai passando —

assustou um passarinho 

distraído na calçada...

foi-se embora a madrugada, 

mais um dia começou

no corre-corre, o leva-e-trás, 

quem não corre não vem mais. 

Corre-corre todo mundo,

fico pronta num segundo

e vou também:

Trabalhar, ganhar dinheiro 

pra comprar vestido nôvo. 

Quem descansa chama rico 

quem trabalha chama povo 

que sou eu, você também. 

mas não conte pra ninguém

Que amanhã eu vou-me embora, 

já comprei casa na lua,

eu não quero ver passando

tanta gente pela rua

se esquecendo de ser gente, 

tão distante, tão sozinha... 

Tudo acaba de repente, 

quem será que vai ficar

pra contar nossa historinha?