Maio de 1969, em plena vigência do AI-5, não sei exatamente como, Eudes conseguiu ir num congresso da Central Única de los Trabajadores de Chile (CUT), talvez representando a Federação dos Bancários de São Paulo e Mato Grosso, organização na qual fazia sua militância política na época. Foi um mês de muita tensão para nós em casa, mas recebíamos cartinhas enviadas por ele de Santiago, cuidadosa e carinhosamente guardadas por minha mãe. Conto mais sobre essas cartas em um próximo post porque neste gostaria de lembrar de personagem que marcou a passagem do Eudes pelo Chile: Jorge Godoy.
![]()
Ouvi muitas vezes o Eudes falar de como em apenas um mês de convivência consolidou uma amizade com Godoy. Membro do Partido Comunista do Chile e dirigente da CUT, Godoy era também fã de boleros dos anos 50, uma das paixões do Eudes. Além disso, o vinho chileno certamente deve ter contribuído para essa amizade alimentada por charlas nos bares de Santiago e Viña del Mar. E, claro, a empolgação com a Unidade Popular, que em 1969 ainda se preparava para a campanha do ano seguinte, e prometia o socialismo democrático, conquistado pelo voto.
Eudes tinha feito a opção pela luta contra a ditadura militar nos parcos espaços de organização civil existentes. Se alinhava com o sonho de uma conquista do poder por caminhos distintos da onda cubana, a via armada, que varreu a esquerda do continente e tirou a vida de centenas de jovens brasileiros que não acreditavam na volta da democracia sem confronto militar, terreno preferencial do adversário. Do alto dos meus nove anos de idade, não podia avaliar o quanto essa opção pela luta nos espaços civis para a reconquista da democracia pode também ter sido importante para conectar Eudes e Godoy. O que estava para acontecer no Chile, tanto a vitória da Unidade Popular em 1970 quanto o seu massacre em 1973, influenciariam a esquerda em todo o mundo. Em meados de 1969, alguma esperança ainda resplandecia.

Godoy me voltou recentemente durante a leitura do livro "The suicide museum", do argentino-chileno-americano Ariel Dorfman, que narra com muita angústia uma "auto ficção", como definiu Mario Sergio Conti, em que discute como morreu Salvador Allende no ataque ao Palácio Presidencial de La Moneda. A angústia da leitura me reavivou a memória da angústia que senti aos 13 anos, tocado pela angústia ainda maior do Eudes, com as imagens diárias pela televisão, que mostravam a crise chilena e o golpe de estado sendo gestado ao longo de 1973 e efetivado no 11 de setembro.
Em algum momento, creio que ainda em julho ou agosto, vi Eudes dar um pulo do sofá ao reconhecer na TV seu amigo Jorge Godoy como Ministro do Trabalho do último gabinete de Allende. No Brasil as coisas iam de mal a pior e àquela altura já estava difícil sustentar alguma esperança com o que acontecia no Chile.
![]()
El Presidente Salvador Allende junto a su gabinete de Salvación Nacional en 09 de agosto de 1973. De pie, de izquierda a derecha: Edecán Áereo, Roberto Sánchez Celedón, Gonzalo Matner García, Odeplan; Fernando Flores, Secretario General de Gobierno; Pedro Felipe Ramírez, Minería; Jorge Godoy Godoy, Trabajo; Arturo Jirón, Salud; [General Director de Carabineros] José María Sepúlveda, Tierra y Colonzación; Anibal Palma, Vivienda; Pedro Vuscovic, Corfo, Edecán Naval Jorge Grez Casarino y el Edecán Militar, Sergio Badiola Broberg. Abajo: General Carlos Prat, Defensa Nacional; Edgardo Enríquez, Educación; José Cademartori, Economía; Orlando Letelier, Interior; Salvador Allende Gossens, Presidente de la República; Clodomiro Almeyda Medina, Canciller; Almirante Raúl Montero, Hacienda; General del Aire César Ruiz Danyau, Obras Públicas y Jaime Tohá, Agricultura.
Do Archivo Salvador Allende é possível conhecer o discurso feito pelo presidente ao apresentar e dar posse a cada um de seus ministros em 5/julho/1973, incluindo Godoy:
Será Ministro del Trabajo, mi estimado amigo y compañero Jorge Godoy Godoy, obrero, Presidente en ejercicio de la Central Única de Trabajadores.
Allende termina seu discurso de posse do novo ministério alertando para as dificuldades que teria pela frente, embora ao mesmo tempo esperançoso no intuito de sossegar os ânimos convulsionados no país, mas claramente incapaz de avaliar a catástrofe que se avizinhava:
En este momento difícil, llamo a la reflexión a muchos que no quieren entender, que el destino de nuestra Patria nos obliga generosamente a actuar y a estar más allá de las apetencias personales o de las querellas partidarias sin fundamento.
Yo sé perfectamente bien que los procesos revolucionarios, lógicamente, sacuden y convulsionan a los pueblos. Pero sé también que aquí hemos querido, y tratamos de hacer, algo que otros pueblos no alcanzaron: una revolución por cauces distintos, de acuerdo a nuestra historia, a nuestra tradición y a nuestra realidad.
Espero que solos seamos capaces de escribir una página más, para señalar que Chile tiene su propia voluntad creadora y su noble decisión de hacer cada vez más grande a la Patria.
No Brasil, após a breve aparição na TV, nunca mais tivemos notícias de Godoy, ainda mais com censura a pleno vapor. Conversei com Eudes algumas vezes anos depois, mas não tínhamos possibilidade de nenhuma informação. Eudes acreditava que talvez tivesse morrido durante a violência do golpe ou da ditadura de Pinochet que se seguiu. Talvez tivesse conseguido escapar para uma embaixada e depois o exílio, como o próprio Dorfman. Mesmo com a chegada da internet, fiz algumas buscas sem sucesso, por ter muitos homônimos em diversos países. Mas nunca esqueci de Jorge Godoy, amante de boleros e amigo do Eudes.
O livro de Dorfman me animou a retomar as buscas online, e assim me reconectar de alguma forma com Eudes e seus ideais. Desta vez consegui um pouco mais de informações. O livro "Punto Final. Autobiografía de un rebelde", de Manuel Cabieses Donoso, tem alguns trechos na internet e revela um Godoy preso, ferido e humilhado na TV, mas indicando que conseguiu chegar ao exílio e ser expulso pelos camaradas. Nas palavras de Manuel Cabieses:
Apareció ante nosotros con la cabeza chorreando sangre quien hasta hacía pocos días había sido Ministro del Trabajo, Jorge Godoy, comunista. Después del golpe, Godoy apareció en la televisión llamando a los trabajadores a no resistir para evitar un derramamiento inútil de sangre. Le habían pegado un culatazo en la cabeza y sangraba mucho. Godoy creyó que yo era un funcionario, no sé, me vio cara de autoridad, y se dirigió a mí: -Señor, por favor, mire como me tienen, que no me golpeen más… No alcancé a decirle nada porque me empujaron dentro de la celda. Y allí estuvimos con Godoy dos o tres días, con solo una marraqueta para compartir como alimento, hasta que nos llevaron al Estadio Nacional. Godoy me relató que lo obligaron a intervenir en la TV bajo amenaza de muerte. De todos modos el PC lo expulsó cuando llegó al exilio.
A partir dessas informações fui procurando mais pistas sobre Godoy, o quarto (e último) Ministro do Trabalho nos agitados três anos do governo Allende, o quarto do Partido Comunista e o quarto vindo da CUT, segundo a Wikipedia. Mas é o único para quem não foi criado um verbete, por ser o menos famoso e, portanto, o mais difícil de se achar informações sobre ele.
Em uma página do governo do Chile, Anales de la Republica, pode-se encontrar informações de todos aqueles que em algum momento ocuparam cargos no poder executivo do país. No verbete Jorge Godoy Godoy ficamos sabendo que ele nasceu em 1920 e é filho de Celedonio Godoy. Nesta página aparecem dois trechos de discursos de Godoy. Em um deles, critica a aparente falta de critério nas invasões de fábricas: “El reivindicacionismo sin principios beneficia sólo a un grupo reducido de trabajadores”. O outro parece ter sido o que disse na TV depois do golpe, já preso: “Preguntado el 11 de septiembre de 1973 para movilizar a los trabajadores al centro de Santiago, responde: ‘No. Los trabajadores están bien en sus centros de trabajo. Allí saben que tienen que hacer’.”
Importante mencionar que este segundo depoimento de Godoy foi publicado na Revista Ercilla, que desde 1971 pertencia à Democracia Cristiana. Uma edição desta revista quinzenal publicada em setembro de 1973 revelava um assassinato em massa que o governo Allende planejava para o dia 17 de setembro: “Miles de extremistas, chilenos y extranjeros, pettrechados con armas importadas de paises como Cuba, URSS y otros, y adiestrados en las propias residencias de Allende, se lanzarían al asesinato de oficiales, dirigentes políticos, periodistas y profesionales en una primera etapa para someter al país a una dictadura totalitaria. No alcanzaron a cumplir sus propósitos.”
Num artigo acadêmico publicado em 1991, Juan Andrés Medina Aravena, discute a politização da CUT em seu envolvimento com “el Gobierno de la Unidad Popular”, concluindo que “la organización laboral se ha transformado em um ente paraestatal” inclusive com responsabilidade de conduzir “el proyecto educacional del Gobierno”, afastando outros segmentos trabalhistas não alinhados com a construção do socialismo e ajudando a isolar ainda mais o governo. Neste artigo, Godoy é mencionado por seu discurso como presidente da CUT nas comemorações do Dia do Trabalho em 1º de maio de 1973, quando o orador “plantea que el país se encontraba em presencia de la agudización de la lucha de clases”.
Depois do golpe, a embaixada da Suécia em Santiago chegou a abrigar 250 refugiados, a maioria de estrangeiros que haviam chegado ao Chile como refugiados, entre eles vários brasileiros. Segundo o Instituto Memoria Viva, que mantém um arquivo digital das violações dos direitos humanos durante a ditadura no Chile, Godoy estava entre “las personalidades chilenas más destacadas refugiadas en la Embajada de Suecia”.
Em artigo de 2016, Carmen Pinto Luna faz uma análise do funcionamento da CUT no exterior, a CEXCUT, após ter cancelado sua personalidade jurídica no Governo Pinochet com o argumento de que “era un instrumento político y no sindical, al servicio de intereses contrarios a los trabajadores (...) en que se confiesan los propósitos de instaurar en Chile el marxismo-leninismo”. Neste argumento, Godoy é mencionado como exemplo da CUT ser um braço do governo deposto. O artigo comenta também como Godoy e outros companheiros da CUT e do Partido Comunista se abrigaram em embaixadas até fevereiro de 1974 antes de partir para o exílio.
Em artigo acadêmico de 2006, Fernando Camacho comenta a situação de asilo prolongado de autoridades, como Godoy, na embaixada da Suécia. O país com o modelo de socialismo democrático do primeiro ministro Olof Palm prestou ampla solidariedade aos exilados. Segundo o Instituto Memoria Viva, a Suécia abrigou cerca de 15.000 Refugiados chilenos entre 1973 e 1989. Camacho se refere a uma “comunicacion personal” de Godoy divulgada em Estocolmo, aos 18 de julho de 2006:
En este aspecto hay que destacar que la Central Unica de Trabajadores (CUT) no tuvo planes propios de tomar fabricas o industrias libremente. La CUT habia acordado previamente con el gobierno de la Unidad Popular cuales empresas debian se estatizadas, entre las cuales no se encontraba em ningun caso la Cia. Chilena de Fosforos. En el caso particular de la empresa sueca fueron algunos afiliados de la CUT que de manera particular hicieron un intento de ocupar dicha firma, sin que ello fuera parte de los planes del sindicato.
Essa comunicação de 2006 se refere a um episódio de conflito entre a embaixada e a CUT ocorrido 33 anos antes quando houve ameaças de ocupação de empresas suecas por trabalhadores chilenos. Harald Edelstan, embaixador desde 1972 e simpático ao governo da Unidade Popular, protestou. A CUT contornou a situação específica, mas a ocupação de fábricas estava se disseminando ao final do governo Allende, em muitos casos contrariando as orientações do próprio governo.
Em sua tese de doutorado, Elisa de Campos Borges descreve os “cordónes industriales” grupos organizados a partir de outubro de 1972 com o propósito político de ocupar fábricas e reivindicar sua estatização. Como os salários e benefícios dos servidores do estado eram melhores do que os do setor privado, disseminava-se que a estatização traria benefícios imediatos aos trabalhadores. Elisa menciona como Godoy se tornou presidente da CUT em novembro de 1972, quando o então presidente Luis Figueroa se tornou Ministro do Trabalho, cargo que Godoy iria ocupar por um breve período apenas 8 meses adiante.
Professor André Carvalho localizou um delicioso testemunho de Juan Capel, comunista espanhol também exilado na Suécia, que relata a convivência com Godoy no exílio. Capel comenta que os exilados organizaram o “Club de los Cronopios de Estocolmo”, dedicado a “charlas y conferencias sobre experiencias en España y sobre la situación en Chile”. O nome do clube é uma clara homenagem a Julio Cortázar, escritor argentino que criou os cronópios, personagens com alma de artista e desorientados com a ordem social vigente.
Em seu testemunho Capel relata um seminário conduzido por Godoy no Club, “sobre la historia del sindicalismo en los países del denominado Cono Sur, analizando y contrastando de forma muy pedagógica las experiencias de Chile, Argentina y Uruguay”. Sobre Godoy, com quem almoçava frequentemente, Capel afirma “que en el campo de lo que se entiende por química personal, pocas personas había conocido yo comparables a Godoy en términos de corrección, discreción y afabilidad. Se diría todo un encanto.” Ainda assim, Capel se recorda do constrangimento quando apresentou a Godoy em agosto de 1975 um livro com críticas às doutrinas do PC soviético sobre questões nucleares e climáticas e Godoy lhe “dejó con cara de poema y sin saber muy bien qué demonios hacer con la mano que sujetaba el libro”. Segundo Capel, Godoy ainda “comentó al cabo que él no leía panfletos antisoviéticos y que, al margen de las disquisiciones más o menos oportunas sobre tan sustantivos contenciosos, aquel texto no era sino una muestra más de puro antisovietismo al uso”. Talvez não tivesse ainda sido expulso do Partido, talvez estranhasse o perfil eurocomunista do companheiro, já que ainda estava recém-chegado ao exílio, o que explicaria ainda sua fidelidade à doutrina comunista oficial que ruiria definitivamente pouco mais de uma década depois.
Digno de nota são comentários na página do testemunho de Capel de duas pessoas que, em 2017, gostariam de saber mais sobre o paradeiro de Godoy e sua família. Perguntam “de su hija Vania” ou como “ubicar al señor Jorge Godoy? por favor he intentando ubicarlo, hace un año, estoy en Suecia”. Por esse último comentário, suspeito que Godoy não tenha mais voltado definitivamente ao Chile, assim como diversos compañeros mencionados no livro de Ariel Dorfman, inclusive o próprio.
Encontrei uma última referência a Godoy numa lista de mais de 500 potenciais entrevistados para uma tese de doutorado defendida em abril de 2017 por Germán Luis Pardo Manríquez. Nesta lista, Godoy aparece na categoria “Ministros vivos de Allende”. Aparentemente não foi entrevistado e seria quase centenário na época.
Este pequeno trabalho de pesquisa sobre Jorge Godoy foi realizado em alguns dias e sem critério objetivo, motivado pela emoção despertada pelo livro de Ariel Dorfman. Hoje, 1 de maio de 2024, Dia do Trabalho, queria prestar uma homenagem ao Eudes e seus amigos idealistas, em especial Godoy, que tombaram nessa longa e tortuosa jornada por uma sociedade mais justa e fraterna.
Excelente, Eduardo! Você aliou uma história pessoal do seu querido e saudoso pai com uma pesquisa histórica de muita qualidade. Tive saudade do Velho. Saudade de vocês também. Mande beijos especiais à Rosa!
ResponderExcluirEduardo, bateu uma saudade. Lembranças de um período cruel. Lembranças boas, apesar de tudo. Lembrei da atividade que o saudoso Eudes praticava e
ResponderExcluirprocurava nos sensibilizar . Muito bom recordar.