segunda-feira, 10 de fevereiro de 2025

O dia que Eudes vaiou a vaia


 IMMuB | Notícia - A Era dos Festivais: Entre vaias e aplausos


O comportamento irracional de torcida caracterizou o III Festival Internacional da Canção (FIC) de 1968, promovido pela Globo para concorrer com os da Record, cuja final de sua etapa nacional foi realizada no Maracanãzinho. A história é bem conhecida, mas as disputas cinematográficas atuais me lembraram do Eudes atento e crítico que se posicionou veemente contra uma maioria vociferante numa competição artística, o que é quase um oxímoro. 

 

Caetano já tinha dado o alerta duas semanas antes no TUCA (Teatro da Universidade Católica), numa das eliminatórias do mesmo Festival: “vocês não estão entendendo nada, nada, nada, absolutamente nada!

Discurso de Caetano no festival da canção de 1968 | Facebook 


Eudes era fã de Geraldo Vandré, ganhador Festival da Record de 1966 com “Disparada”, parceria com Théo de Barros, interpretada de forma eloquente por Jair Rodrigues e acompanhada por Hermeto Paschoal, Heraldo do Monte e Airto Moreira, tocando uma queixada de burro no palco. Além de muito bom cantor, Eudes elogiava Vandré por suas muitas virtudes como compositor romântico (“Pequeno Concerto que Virou Canção” era uma das favoritas). 

O dia em que vaiaram a vitória de Chico Buarque: a música de resistência de  Vandré e o Festival Internacional da Canção 


No FIC de 1968, um Vandré minimalista empunhou sozinho um violão e, com os dois acordes de “Pra não dizer que não falei de flores”, arrebatou a maioria dos torcedores entre os 25 mil que estavam no Maracanãzinho. Essa maioria barulhenta, armada de apitos e faixas, despejou vaia de 20 minutos ao conhecer o resultado que dava vitória da fase nacional a “Sabiá” de Tom & Chico, orquestrada por Eumir Deodato e interpretada pelas irmãs Cynara e Cybele, que semanas depois também ganharia a fase internacional. 

O dia em que vaiaram a vitória de Chico Buarque: a música de resistência de  Vandré e o Festival Internacional da Canção 


Assistimos a final nacional em casa, ao vivo em preto e branco. Aos oito anos de idade, sem entender direito, ouvi a explicação exaltada de Eudes, misturando exilados políticos com Gonçalves Dias, com um passarinho, com palmeiras, com a esperança de voltar para “colher a flor que já não dá”. Como as vaias não paravam, ele em frente à TV, vaiou o Maracanãzinho. Aprendi com o Eudes a vaiar a vaia.

Nenhum comentário:

Postar um comentário