segunda-feira, 28 de março de 2011

Histórias que o Eudes contava

“Numa temporada especialmente boa do Textil”, lembrava ele, “havia um sem número de pretendentes a jogador que enfrentavam as peneiras que ocorriam antes dos treinos do time principal. Alguns ‘peneiras’ ficavam para assistir o treino do ‘time de cima’. Num desses treinos, cheio de torcedores empolgados, o time não funcionava muito bem, irritando os mais fanáticos. Foi quando um dos ‘peneiras’ pegou uma bola do lado de fora do campo, jogou-a para o alto e fez o controle com a cabeça. A seguir saiu caminhando em volta do campo, sempre controlando a bola com toques de cabeça. Após alguns minutos, a torcida passou a seguir as manobras de foca com a bola na cabeça e parou de prestar atenção no treino modorrento. Não demorou a atenção se transformou em ovação. A imagem dos jogadores pouco inspirados dentro de campo, e o contraste com aquele garoto dando show de técnica e habilidade fora de campo, foi o suficiente para a torcida exigir a sua presença no time. O técnico resolveu experimentar e chamou o rapaz. Numa conversa rápida, perguntou em que posição jogava, retirou alguém do time para dar lugar ao novato. A torcida veio abaixo: agora sim! Faz o que você sabe, garoto! No primeiro lançamento em profundidade a torcida segurou a respiração na expectativa: agora vai! O novato, entretanto, ao invés de dominar a bola em direção ao gol, levantou-a e fez o que sabia: controle com a cabeça! Foi uma decepção descobrir que o rapaz era malabarista, não jogador de futebol.”

Outra boa história é a do Vado. Contava Eudes que “num jogo que o Cruzeiro, líder do campeonato, foi a Sete Lagoas, o estádio lotou. Era sempre um desafio e um prazer ver um dos grandes de Belo Horizonte jogar na cidade, tanto porque assim era possível ver de perto os craques mais famosos do estado, quanto pela emoção de ver dois times do coração, o local e o da capital, jogando um contra o outro. O Cruzeiro ganhava de 1x0 quando o Vado entrou em campo para o time local. Na primeira bola que recebeu, na intermediária, Vado dominou para o lado e chuta direto para o gol. No ângulo, sem chance para o goleiro. O jogo recomeça, outra bola rolada para o Vado, que domina de lado e bate, quase do meio de campo. No ângulo, outra vez! 2x1. A esta altura a torcida delirava. Foi quando rolam outra bola para o Vado, de novo de longa distância, solta a terceira bomba no ângulo. 3x1. O Cruzeiro saiu de Sete Lagoas com o Vado sob contrato. Como nunca mais se ouviu falar dele, imagina-se que seu futuro não tenha sido muito brilhante, mas por um dia, Vado foi rei.”

Ouvi várias vezes Eudes contar a história do Mussolini e o ‘Gravatinha’:Mussolini era jogador de um time de Sete Lagoas que foi jogar em uma cidade próxima. O ambiente era hostil, por uma rivalidade antiga e a partida era válida por um torneio regional. Desde o início deu para perceber que além do jogo duro do adversário, o juiz também facilitava para o time da casa. Foi aí que o Mussolini entrou em ação. Percebendo que a situação era amplamente desfavorável, Mussolini achou que poderia ganhar tempo chutando deliberadamente a bola para fora do campo. Como o campo ficava num alto, cada bola chutada fora demorava em ser reposta, pois os gandulas tinham que descer todo o barranco para buscá-la. Mussolini não fazia por menos: cada bola que caía no seu pé ele mandava com toda força para fora. Depois de uns chutes o jogo tinha de parar para esperar que os gandulas subissem o morro. O juiz advertiu Mussolini, os adversários ameaçavam fisicamente e a torcida já estava irascível. Mas ele nem aí: mandava para fora sem disfarçar. Com a ameaça de invasão de campo, a polícia também estava irritada com o Mussolini. O juiz deu um ultimato, e na próxima bola que recebeu Mussolini caprichou, mandando mais longe do que tinha feito com as anteriores. Não deu tempo nem para a expulsão: os donos da casa partiram para briga, a torcida invadiu e começou o maior quebra-pau. Quando a confusão acalmou um pouco, deu para ver Mussolini sendo arrastado por dois soldados que o levavam para a cadeia. Foi quando apareceu um senhor de gravatinha borboleta, provavelmente algum representante da liga regional, querendo amenizar o estrago que já estava feito. Convenceu os soldados a soltar Mussolini, afinal ele era um adversário, mas também o jogador de um time convidado a atuar na cidade. Ao se ver solto, Mussolini deu um inesperado direto no queixo do senhor de gravatinha, que caiu sentado, completamente atônito. Os soldados agarraram Mussolini, que naquele momento deve ter avaliado a situação e decidido que o local mais seguro era mesmo a cadeia.”

Minha história favorita sempre foi a do pênalti decisivo. “Democrata e Bela Vista disputavam a partida final de um torneio da cidade. O empate dava o título para o Democrata e o jogo estava 1x1. Aos 40 e tal minutos do segundo tempo, numa jogada confusa na área, o juiz marca pênalti para o Bela Vista. Empurra para lá, empurra para cá, discussão e muita argumentação não permitiam a cobrança do pênalti. Depois de passado muito tempo e sem chegar a qualquer acordo, os times saíram de campo sem que o pênalti fosse batido. A discussão sobre quem teria sido o campeão não conseguia ser resolvida pela liga municipal e já tinha virado a principal discussão da cidade. O assunto foi levado para a federação mineira. Alguns diziam que só a CBD teria isenção suficiente para resolver a questão. Ou a Fifa! Depois de muita negociação chegou-se a um acordo. O pênalti seria cobrado. Em uma semana o estádio seria aberto e entrariam em campo apenas o juiz, goleiro e o cobrador do pênalti para selar a decisão. Goleiro e cobrador treinaram em dois turnos. O cobrador estava afiado e quem acompanhava os treinos confirmava que tinha atingido um aproveitamento superior a 100%. O goleiro, diziam, tinha até crescido alguns centímetros, tamanha jornada de treinamentos. E pegava tudo. No dia marcado, foram os três para o campo. Uniformes novinhos em folha, chuteiras lustrando. A torcida lotou completamente as arquibancadas, os muros e as árvores do estádio. Ao apito do juiz, ninguém mais respirou. O cobrador iniciou sua corrida até a bola e... chutou mais chão do que bola. O goleiro teve que se adiantar para agarrá-la, pois ela não rolou até o gol. Testemunhas juram que um torcedor morreu ao cair de uma das árvores, de tanto rir.”

Um comentário:

  1. Eduardo!
    Tudo bom?
    Seu pai tinha muitas histórias e estórias - algumas destas escritas.
    Além dos "causos", piadas,das crônicas ficção, poesias e os textos politícos e ideológios.
    Fica a sugestão para um resgate desses textos e a publicação neste blog.
    Um abraço,

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