quarta-feira, 16 de março de 2011

Eudes militante


Comecei a escrever este texto quando meu pai ainda estava no hospital, às vésperas do segundo turno de 2010. Só fui conseguir concluir quase três meses depois. Se a emoção me deixar e algum talento ajudar, quero ainda escrever outros.

Eudes: pequena história de um militante

Nos anos 50, encontrava com minha mãe na JOC (Juventude Operária Católica), quando os dois eram trabalhadores da fábrica de tecidos de Sete Lagoas, ela na linha de produção e ele nos serviços de escritório.

Descobriu-se comunista e ateu ao mudar para São Paulo, já como funcionário do Banco do Brasil. Logo após o golpe de 64, sua célula comunista quase inteira foi para a luta armada. Para ele, que morava num bairro operário na periferia, não fazia sentido o discurso pequeno burguês de seus colegas bancários que afirmavam “que o povo clamava pela revolução”. Argumentava que nossos vizinhos, muitos nordestinos e operários da fábrica do nosso bairro, já tinham passado por uma verdadeira “revolução” quando mudaram do agreste coronelista para um emprego com carteira assinada numa metalúrgica.

Militando no sindicato dos bancários, estava em Recife em 1966, quando explodiu uma bomba no aeroporto de Guararapes. Voltou preocupado com a transformação do espaço político em confrontação militar. Participou do comitê organizador do 1º de Maio Unificado em 1968, que acabou em quebra-quebra na Praça da Sé. Frustrava-se com a radicalização que levaria a luta política para um beco com poucas alternativas para recuperar as conquistas democráticas perdidas.

Uma noite de 1968 acordei com uma pequena confusão em casa. Morávamos num sobrado e do meu quarto podia ver meus pais fazendo uma fogueira no quintal dos fundos. Só fui entender tempos depois que naquela noite de dezembro tinha sido proclamado o AI-5 e que era necessária uma “queima de arquivo” lá em casa. O cerco político se apertava e deixava cada vez menos opções para ele que lavava seus sapatos sujos pela tinta da pichação feita de madrugada, para ter o que calçar no dia seguinte de trabalho.

O ano de 1969 começou quente. Meu pai tinha o “azar” de fazer aniversário no dia 31 de março, dia que os militares celebravam o golpe, além de se chamar Humberto, homônimo do general que iniciou a saga da ditadura. Naquele ano minha mãe organizou uma festa surpresa, da qual ninguém quis aparecer para comemorar. A ditadura deu uma verdadeira e literal dura nos que se arriscaram a sair de casa, prevenindo-se contra possíveis manifestações de oposição ao regime na “data comemorativa”. A comida da festa que não houve ficou toda na mesa.

Ainda em 1969 foi para o Chile participar de eventos da CUT chilena, animado com o favoritismo eleitoral de Salvador Allende pela Frente Ampla, que viria a ganhar as eleições no ano seguinte. Uma amizade que fez nesta viagem, Jorge Godoy, seria ministro do trabalho de Allende já no final do seu governo. Enquanto víamos pela TV o golpe de Pinochet, expressava sua preocupação com o amigo de vinhos e cantorias. Nunca mais tivemos notícias de Godoy.

Outro amigo muito próximo que desapareceu em 1969 foi Salvador Tolezano, presidente do sindicato dos bancários na época, enquanto meu pai era diretor da Federação dos Bancários de São Paulo e Mato Grosso. Com o assassinato de Tolezano, que deixou duas filhas pequenas, ficou arrasado e convencido de que a luta política estava ganhando contornos dramáticos, mesmo para quem não defendia a luta armada. Muito antes das mortes de Herzog e Fiel Filho. Minha mãe ficava apavorada e logo depois cessaram as atividades na gráfica clandestina que ocupava o seu tempo depois da jornada de bancário.

Em 1971 fui eu quem lhe deu a notícia da morte de Lamarca. Tinha visto na TV durante o dia e contei a ele à noite, quando havia um grupo de amigos bebendo e conversando animadamente em casa. Caiu num choro incontrolável. Acabei com a festa e quase morri de culpa.

Ao longo dos anos 70, com o espaço político muito limitado, a sua participação se voltou para a organização das reivindicações internas dos funcionários do BB, instituição da qual se orgulhava de fazer parte. Era a “fresta da cesta”, como viria a dizer o Caetano nos versos de “Festa Imodesta”.

A atividade política interna no banco nunca foi para ele uma luta menor. Além de ampliar o sentido da condição de simples e conformado “bancário”, também era uma consciente opção gramsciana pela organização da hegemonia democrática a partir do espaço cotidiano da atividade produtiva.

As disputas acirradas nas eleições da Associação Atlética do Banco do Brasil, a AABB, tradicionalmente controladas pela ala mais conservadora dos funcionários, tinham episódios às vezes pitorescos, como não poderia deixar de ser, pois ocorriam na maioria das vezes no ambiente de atividades recreativas de final de semana. Estas disputas em assembléias mais do que animadas tinham o contorno de confronto com a ditadura.

A sua participação na criação de entidades dentro do banco foi uma constante. Participou inclusive muito ativamente da criação da creche para os funcionários, que veio a funcionar na AABB, quando nós, seus filhos, já tínhamos passado há muito da idade de precisar de uma. A organização de grêmios dentro das agências, os Satels, foi tanto a criação de um novo espaço de atuação, quanto uma reação à exclusão dos que também se dedicavam ao banco, mas não tinham oportunidade de frequentar as AABBs.

Com o tempo foi perdendo a paixão pelo envolvimento com a política tradicional, fora do banco. Depois do lampejo de esperança com a volta dos exilados em 79, que fomos juntos receber no aeroporto, veio a decepção crescente com as declarações e o contato mais constante com seus ícones de outros tempos. As brigas internas entre os dirigentes do Partidão que retornavam ao país e a decadência acelerada do “socialismo real” o afastaram definitivamente de qualquer atividade militante que não fosse no ambiente interno do banco. Certa vez, num sábado, não conseguiu participar de uma reunião clandestina do Partidão em casa porque estava com uma ressaca terrível. A ressaca talvez não tenha sido o problema, pois já tinha enfrentado outras reuniões duras nestas condições. O mais importante é que, no fundo, ele não levava mais a sério a organização partidária. Enquanto minha mãe fazia salgadinhos os camaradas achavam tudo muito estranho.

A sua ida para a cooperativa de consumo dos funcionários no início dos anos 80, além de ampliar o alcance da sua atuação, afastou-o definitivamente das atividades de bancário de agência, para onde nunca mais voltou. E essa mudança permitiu que se exercitasse com mais frequência em uma das suas atividades favoritas: as campanhas eleitorais. Era nas eleições que se revelava o militante inato. Das articulações, às montagens de chapas e redação de manifestos. Era sempre o redator, oficial ou oficioso, dependendo do caso. Gostava muito de escrever e também era reconhecido pelo seu talento. Tornou-se conhecido por funcionários do BB em todo o país pelos documentos que escrevia nas campanhas eleitorais das diversas entidades.

A sua incompatibilidade com o dogmatismo partidário não impediam que continuasse a se definir como um comunista “idealista”. A queda do muro e a desintegração da URSS provocaram a referência irônica a si mesmo: seria parte do pequeno grupo de “os últimos comunistas”, junto com Fidel e Niemeyer. Na prática distanciava-se dos camaradas dentro e fora do banco, entrando em confrontos cada vez mais constantes nas campanhas eleitorais, e não seguindo nenhuma orientação partidária, nem mesmo nas eleições gerais e presidenciais. Tornava-se um órfão partidário, e aliava-se conjunturalmente segundo suas convicções e no que julgava ser o interesse dos funcionários do BB, não mais pela orientação disciplinada de qualquer partido que fosse.

Da cooperativa foi, já nos anos 90, para a Previ, onde pôde praticar com muito mais propriedade a seu desenvolvimentismo. Contribuiu com um momento de virada importante nos fundos de previdência das estatais, quando estes deixaram de ser meros investidores sob o comando do governo de plantão para se tornarem gestores das empresas em que investiam. Argumentava que tinham o direito de definir os destinos dos recursos dos funcionários do banco ao assumir assento nos conselhos das empresas e, de quebra, ajudavam a definir o destino do país, dado o imenso volume de recursos envolvidos. Nesta lógica, fazer pelo banco e seus funcionários era fazer pelo país.

Desde a empolgação com o possível Lula-lá de 89, depois de votar no Brizola no primeiro turno, havia tido uma aproximação programática e pontual com alguns membros do PT. O crescimento desse partido após a redemocratização não o seduzia ideologicamente, mas criava mais oportunidades de alianças e confrontos, dependendo da campanha e da situação interna de uma ou outra entidade do banco. Eventualmente contribuía com o financiamento das campanhas eleitorais de petistas, coisa que já não fazia mais pelos antigos camaradas.

Foi durante o tempo de Previ que a sua diferença com os companheiros do PT ficou irreconciliável. A situação se tornou mais agressiva. Atribuiu a derrota numa das eleições a acusações inverídicas espalhadas contra um de seus companheiros de chapa, numa articulação dirigida pelo petismo. Não engoliu os pedidos de desculpas que vieram depois, pois na opinião desses adversários, seria normal “dizer qualquer coisa para se ganhar uma eleição”.

Este processo foi tão dolorido que ficou um tempo sem sair de casa, deprimido e decidido a usufruir de uma aposentadoria a que já tinha direito. Lentamente e incentivado pelos amigos mais próximos, foi voltando a participar de uma ou outra reunião, mas nunca mais teve o mesmo vigor do militante de outros tempos. Passou a participar de reuniões de uma ou outra entidade, mas não demonstrava mais a empolgação com as campanhas eleitorais, embora ainda tivesse alguma participação eventual.

Em seus vários poemas, sempre havia espaço para o amor e questões existenciais, mas não para a discussão política, que ficava para a prosa, quase sempre em tom de ironia. Sua única manifestação poética de tom mais idealista foi numa homenagem que fez a Charles Chaplin numa canção em parceria com seu irmão, Herberto, também bancário do BB:

“Zomba da ordem permanente
Que lei que não consente
Já não é e nem será”

Sempre cantei estes versos como sendo uma manifestação libertária do Eudes sobre si mesmo. Morreu o militante, mas sua poesia e seu espírito livre permanecem conosco.

Um comentário:

  1. Parabéns, Eudes! Parabéns Eduardo Diniz! É a coleção de história mais rara e original que já vi! Que bom tê-la compartilhado! Difícil escolher uma... arrisco dizer que a do Pai de Tóla é demais... inimaginável... Ilda

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