segunda-feira, 28 de março de 2011

Eudes, o torcedor cético

Eudes era um torcedor de comportamento no mínimo curioso. Torcedores, em geral, são apaixonados e acríticos que só querem saber de empurrar seu time para cima dos adversários. Eudes, ainda que apaixonado, era quase sempre cético com relação ao seu time. Como todos os outros torcedores, sofria quando seu time era atacado, mas ao contrário dos outros, dizia para si mesmo: “eles vão marcar, eles vão marcar...”. Quando o jogo virava e seu time partia para o ataque, mudava o discurso: “vai perder o gol, vai perder o gol...”. Nunca entendi este comportamento um tanto irritante. O interessante que esta característica pessimista do torcedor não combinava com sua personalidade, em geral otimista.

Um momento histórico deste modo estranho de torcer foi na final a copa de 70. Como todo mundo, achava que o time era muito bom mas fazia questão de guardar certa precaução. Na véspera do jogo contra a Itália, com a euforia instalada, alertava com ar sombrio: “em 50 o clima estava parecido”. Quando o jogo começou e Pelé fez aquele fantástico gol de cabeça, pulou e gritou como todos. Seu primeiro comentário foi: “Pelé vai querer marcar os gols que perdeu em outros jogos”, referindo-se à cabeçada defendida por Banks contra a Inglaterra e com a esperança de que o chute do meio de campo contra os Tchecos e o incrível drible sem bola contra o Uruguai se materializassem em gols naquela final.

Logo, entretanto, recuperou seu instinto de torcedor cético. Minutos depois, quando todos se sentaram para continuar assistindo o jogo, vaticinou: “em finais de copa, quem faz primeiro, perde. Em 50 o Brasil marcou primeiro; em 54 a Hungria marcou primeiro; em 58 a Suécia marcou primeiro; em 62, os Tchecos; em 66, a Alemanha...”. Ninguém questionava a sua memória fantástica, mas não dava para embarcar naquela onda pessimista, típica dele. Até que Clodoaldo enfeitou e perdeu uma bola no meio de campo, o que gerou uma confusão na defesa, Félix saiu da área, e a Itália empatou. Com o silêncio instalado, sorriu amarelo com o canto da boca. Sem emitir nenhum som, balançava a cabeça como que afirmando: “eu disse...”. No segundo tempo a história foi outra e o pessimismo deu lugar à festa.

Outra demonstração clara do torcedor cético foi num jogo Palmeiras e Flamengo, nas quartas de final da Copa do Brasil em 1999. O Palmeiras havia perdido o primeiro jogo no Rio por 2x1 e precisava ganhar em São Paulo. Com menos de um minuto de jogo, o Flamengo fez um gol. O Palmeiras iria precisar fazer pelo menos mais 3. Com a tática de jogar bola na área, no mais clássico estilo Felipão, o Palmeiras tentava e não conseguia. Até que veio o empate suado. Menos de um minuto depois o Flamengo fica novamente na frente. Neste momento entra o torcedor cético, que muda de canal xingando o Felipão, técnico que sempre detestou pelo estilo retranqueiro. No dia seguinte fui visitá-lo e, ainda no portão, fui falando da emocionante vitória, que tínhamos assistido no dia anterior, meu filho e eu, na minha casa. Foi quando descobri que ele nem sabia o resultado do jogo! O torcedor cético tinha matado qualquer esperança antes do apito final. Perdeu uma das mais espetaculares viradas da história do seu time, que acabou vencendo o jogo por 4x2, classificando- se com dois gols de Euler no finalzinho do jogo.

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