segunda-feira, 28 de março de 2011

Eudes, o torcedor de TV

Não há dúvida que a disseminação da TV como aparelho eletrodoméstico influenciou consideravelmente a relação dos torcedores com o esporte. Com o Eudes não foi diferente. Passou a exercitar a sua verve de comentarista com muito mais propriedade, e conseguia assistir a número muito maior de jogos: dos campeonatos tradicionais, aos torneios dente-de-leite, até as domingueiras sessões do “Desafio ao Galo”.

As copas do mundo, por exemplo, passaram a ser eventos muito mais relevantes no mundo do que eram antes de podermos assistir os jogos ao vivo. De 58 e 62, tínhamos guardadas imagens em edições amareladas das revistas Cruzeiro e Manchete que ficaram anos nas gavetas lá de casa. Da copa de 66, a única imagem que me ficou foi a capa de uma revista Realidade, com Pelé usando um tradicional chapéu da guarda inglesa, sugerindo que tínhamos ganhado o tri.

Em 70, com os jogos ao vivo tudo ficou diferente. As reuniões para assistir o jogo em frente à TV passaram a ser uma regra. Na copa de 74, as TVs coloridas ajudaram a dar sentido ao apelido de “laranja mecânica” da seleção holandesa. As palavras “replay” e “repeteco” entram em nosso vocabulário a partir das copas transmitidas ao vivo. E as imagens e “closes” nos jogadores passaram também a fazer parte das análises.

O anticapitalismo do Eudes confrontava com a mercantilização da imagem do jogo. Na final de 70, depois que o Pelé bate uma falta para a arquibancada solta: “tá usando chuteira do patrocinador”. Talvez fruto de sua deficiência capilar, reclamava muito do visual “black-power” de Jairzinho, Paulo César Caju e cia, na copa de 74. “Amortece a bola e prejudica a cabeçada”, explicava cientificamente. Eudes também confrontava com certos hábitos e costumes que se disseminaram com a geração de jogadores pop star: “jogador gasta 5% do seu tempo com futebol, 15% com mulher, 25% com carro e 55% com cabelo”.

O jogo vira evento esportivo e outros esportes passam a fazer parte da nossa rotina de torcedores. Assisti ao vivo a muitos destes eventos no sofá da sala de casa, com meu pai: o milésimo de Pelé, o nocaute de Mohamed Ali em George Foreman, o homem na lua... fórmula 1, vôlei, tênis, olimpíada... Emerge o torcedor de TV que justifica o fim do torcedor de estádio.

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