segunda-feira, 28 de março de 2011

Histórias de torcedor

Eudes era palmeirense desde criança em Sete Lagoas, quando os meninos escolhiam para torcer um time do Rio e outro de São Paulo, além de um em Belo Horizonte e outro da cidade. No Rio era Vasco, mas a mudança para São Paulo ajudou a consolidar sua preferência pelo Palmeiras. Sobre o time de Belo Horizonte, sempre fez questão de algum mistério, deixando espaço tanto para o Atlético quanto para o Cruzeiro. Recentemente fiquei sabendo que na infância torcia pelo Cruzeiro, mas não foram poucas as oportunidades que o vi torcendo apaixonadamente pelo Galo. Afirmava que torcia igualmente para os dois, o que é algo um tanto difícil para um mineiro entender.

Em Sete Lagoas, dizia, era Bela Vista Futebol Clube. Talvez fosse uma identificação com o “periquito”, símbolo do time, e que também era o do Palmeiras, na era pré-porco. Talvez fosse apenas uma atitude de ironia pela quixotesca excursão européia do time em 1958, quando o Bela Vista enfrentou Real Madrid de Puskas, DiStefano e Kopa, no Santiago Barnabéu, e o Olympique em Marselha. Perdeu para o primeiro por 2x1 e para o segundo de 3x1, mas o time foi ovacionado em desfile de carro aberto em Sete Lagoas na volta da fracassada excursão. (Para saber mais sobre o Bela Vista, clique aqui)

Entretanto, seu envolvimento mais direto com o mundo do futebol foi com o Textil Esporte Clube, time da fábrica de tecidos da cidade, onde trabalhava. Acompanhou o time em excursões pelo interior como uma espécie de cartola e às vezes, técnico. Orgulhava-se de ter lançado um goleiro chamado Careca, que chegou a titular do Atlético no final dos anos 60, conheceu o juvenil Vaguinho, depois herói corintiano nos anos 70 e Calango, que hoje trabalha no mercado municipal setelagoano, e ainda se considera como um de “seus jogadores”. Por esse envolvimento com os bastidores do futebol, Eudes filosofava: “jogadores e prostitutas são as profissões mais parecidas uma com a outra”.

As melhores histórias de futebol que Eudes contava são do final dos anos 50 e início dos anos 60. Durante muito tempo insisti para que ele escrevesse estas histórias ele mesmo, que as contava e recontava em papos entre amigos, mas nunca obtive sucesso. Conto estas histórias de memória, do jeito que me ficaram gravadas, quase ouvindo sua voz.

4 comentários:

  1. Caros amigos,
    Não. Ninguém jamais entenderá o Eudes torcer tanto para Atlético quanto para Cruzeiro. É mais ou menos como Fla x Flu, Corintians x São Paulo, Grêmio x Internacional. É inconciliável. Torcedor do Galo, torce sempre contra o Cruzeiro até se a Raposa jogar contra o time dos demônios do inferno. Se jogar Flamengo x Cruzeiro, o atleticano torce para que uma bomba caia no estádio. Mais: atleticano de verdade, se o filho nascer de olhos azuis manda furar!
    Então a torcida de Eudes tanto para um quanto para outro só tem uma justificativa. A saudade das Minas Gerais. Talvez só essa razão, ser um exilado das montanhas gerais, faça alguém torcer por ambos

    ResponderExcluir
  2. Apesar do comportamento curioso, o Eudes era bastante comedido nas comemorações e respeitava muito os torcedores dos adversários. Me lembrei agora de uma passagem que ele me contou, de quando foi acompanhar nosso também saudoso colega do BB, seu parceiro poeta e compositor, Geraldo Luiz Azevedo, numa visita ao cantor e compositor Paulinho da Viola. Geraldinho acompanhava a gravação de um CD com músicas do Capiba para a Campanha Natal sem a Fome que o cunhado do Paulinho, Raphael Rabello estava produzindo antes de falecer em 1995. Era um final de tarde de um domingo de 1996 e o Palmeiras havia derrotado o Vasco por 3 x 1. O Eudes contava que encontraram o Paulinho bastante chateado e ele mais comentou sobre o tempo em que, morando no Rio, torcia para o Vasco, do que sobre o seu time paulista que acabara de vencer o agora rival. Esse era o Eudes, respeitando o sentimento das pessoas até no futebol.

    ResponderExcluir
  3. Isa,
    Eu também não entendo muito isso. Dia desses o Internacional foi disputar o campeonato mundial de clubes e alguém quis me convencer que era o Brasil que jogava. Não vejo assim. Futebol é paixão. Como sou são paulino, tri campeão mundial, quero que todo mundo perca!... Mas o Eudes, ao mesmo tempo em que era determinado e veemente em tanto embate político importante, talvez fosse mais generoso no futebol...
    Você concluiu bem... Saudade de Minas, talvez.
    Diniz

    ResponderExcluir
  4. E ontem encontramos o Fernando Miranda para um vinho no "Carpediem" e um dos assuntos principais foi o Eudes. Lembramos que hoje seria seu aniversário. O Fernando, apelidado pelo Eudes como um dos Querubins, foi quem deu carona para o Eudes e para o Geraldinho na visita ao Paulinho da Viola e me corrigiu dizendo que o fato não aconteceu num domingo e sim numa quarta feira. E mais, que quando chegaram à casa do Paulinho da Viola, a esposa dele os recebeu e pediu para aguardarem um pouco porque o Paulinho estava na garagem, dentro do carro, ouvindo os minutos finais daquele jogo do Vasco com o Palmeiras. O resto vocês já sabem...

    ResponderExcluir