segunda-feira, 28 de março de 2011

Eudes, o torcedor no estádio


Acostumei a acompanhá-lo para assistir jogos desde pequeno, quando íamos aos domingos no campo de terra batida da Aliperti, a siderúrgica próxima da nossa casa. Em 1969 (exato um mês antes do milésimo de Pelé), alguns tios que vieram de Minas para nos visitar queriam ir ao Pacaembu assistir Corinthians e Santos. Quem sabe não acontecia uma goleada astronômica e o Pelé chegava aos mil naquele dia? Meu pai não queria me levar e argumentava que poderia ser perigoso para uma criança de 9 anos. Com a pressão de minha mãe e de meus tios, cedeu.

Chovia muito desde cedo naquele domingo. Já chegamos encharcados ao estádio e, mesmo antes de começar o jogo, não conseguíamos sair da área coberta do Pacaembu. Como tínhamos guarda-chuva, queríamos descer para a área descoberta, o que a maioria, os sem guarda-chuvas, não queria. E travavam nossa possibilidade de descer e ter alguma visibilidade do campo. Na confusão, empurra-empurra, Eudes falou: “cuidado que aqui tem criança!”. Alguém retrucou: “criança que se foda!”. Imediatamente deu um murro no fulano. A confusão, que já estava armada, virou ameaça de briga pra valer. Eu espremido contra ele, que segurava o guarda-chuva com a mão esquerda e mantinha o punho direito em posição de ataque. Enquanto isso, um velho tentava roubar o guarda-chuva da mão esquerda dele, concentrado apenas na briga iminente. A situação não ficou pior porque não havia espaço nem para brigar. E o velho acabou por arrancar o cabo do guarda-chuva, enquanto o outro fulano se afastava espremido na multidão sem ter reagido. Nisso ele volta seu olhar de ataque para o velho que, meio sem jeito, devolve o cabo do guarda-chuva com um sorriso amarelo. Conseguimos descer depois que o jogo já havia começado. Mas só houve o primeiro tempo, que terminou 1x1: Rivelino depois Pelé. No intervalo o juiz veio ao meio do campo para fazer sinal de que o estado do gramado não permitia as mínimas condições para um jogo de futebol. (sobre este jogo que não acabou, clique aqui). Frustrante para mim, que senti pela primeira vez o que era uma verdadeira confusão em estádio de futebol. E se foi um tanto assustador ver meu pai tão agressivo, pelo menos senti que esta agressividade era para me proteger.

O resultado dessa experiência é que eu iria ficar um tempo ser ir ao estádio novamente. Por isso não acompanhei meu pai na final entre São Paulo e Palmeiras, em 1971. Lembro bem do jogo, pois vi tudo pela TV várias vezes. Aos 5 minutos, um tal de Minuca sobe elegantemente e cabeceia a bola para o meio da área, bem nos pés de Toninho Guerreiro. São Paulo 1x0 (veja). No segundo tempo, o time do Palmeiras, com Ademir, Leivinha e César passa a dominar a partida. Quando Leivinha consegue fazer o que seria o gol de empate, o Armando Marques anula o gol argumentando uma mão na bola que só ele viu (confira no youtube). Não sei direito o que aconteceu com o Eudes neste dia no Morumbi, mas ele voltou para casa sem o rádio que tinha levado ao estádio.

A esta altura já sabia que ele poderia virar um torcedor enfurecido, quando envolvido com multidões em estádios. Fomos algumas vezes juntos a jogos, sem maiores incidentes. Assistimos tranquilamente a jogos do Brasil na Minicopa de 1972, no Maracanã e até jogos de Palmeiras contra o Santos. Como torcíamos para times diferentes, eu ia ao estádio com uns vizinhos santistas, e os percebia bem menos tensos que ele, que costumava ficar uma pilha. Num São Paulo e Palmeiras, em 1974 vi a fúria tomar conta novamente do torcedor. O São Paulo fez 2x0 e saímos do jogo caminhando pela avenida Morumbi, em meio a palmeirenses cabisbaixos e lamentosos. Quando passa um carro de são paulinos gritando e gozando os derrotados. Meu pai sem pensar, em um instante, pega meio tijolo e manda direto no carro. Por sorte a pontaria dele foi ruim. Fiquei muito assustado e acho que ele também, com sua própria reação impensada, perigosa e completamente anti-social. Nunca mais foi a um estádio na vida.

6 comentários:

  1. A foto que coloquei nesta página é de uma simulaçao de luta do Eudes (magrinho de branco) com um chicote contra o Geraldo Francisco, um de seus melhores amigos do tempo de Sete Lagoas, usando um banco para se defender. É dos anos 50, mas não sei precisar a data.

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  2. Aliás, para quem não desconfiou, este caminhão vermelho que aparece de vez em quando é de um KB-11, modelo 1948.

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  3. Eduardo é santista como nosso tranquilo vizinho Lourival, o "Lôro". E com um pai palmeirense, torcedor nesta intensidade.

    Mas não dava nem para assistir jogo na TV com ele. Ele desligava o aparelho em momentos críticos, brigava, avisava que não aguentaria tiração de sarro... Apaixonado e intenso como em tudo.

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  4. Este comentário foi removido pelo autor.

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